Nós, mulheres da escola quilombola de educação política e ambiental, provenientes de diversas comunidades quilombolas do Sapê do Norte do estado do Espírito Santo, convocamos as mulheres de nossas comunidades para a tarefa histórica de retomada e reconversão do território quilombola de Linharinho.
Em Linharinho, as famílias quilombolas ocupavam 9.542,57 hectares de terra. Hoje, estamos reduzidas a 147 hectares. Desde 1970 que nossas famílias vêm sendo expulsas, que nossos rios e córregos vêm desaparecendo, que nossa cultura, pesca, nossas ervas e artesanatos vêm sendo destruídos. Nossa natureza foi quase toda devastada. 82% da terra de nossos ancestrais está coberta pelos eucaliptos da Aracruz Celulose. Nem o cemitério foi respeitado.
A sabedoria de nossos avós, nossos deuses e cultos, foi tudo desacreditado. Nossas irmãs e irmãos, nossos maridos, filhas e filhos, sem trabalho, sem a mata e sem os rios, foram expulsos para as favelas das cidades. Para onde foram Maria, Benedita, Joana, Domingas, e tantas outras? Onde estão nossas sementes crioulas de milho, arroz, feijão? Onde estão nossas ervas, cipós e pássaros?
O deserto verde cresceu e assolou sem limite. Passou correntes e tratores por cima de nosso mundo, por cima de tudo. Das que resistimos na terra, os plantios de eucalipto de rápido crescimento nos empurrou para dentro de nossas casas e quintais.
Mas nós, mulheres quilombolas, guardiãs do saber tradicional e ecológico, desde nossos quintais, resistimos à expansão do grande eucaliptal. E hoje, convocamos todas nós, mulheres quilombolas do Sapê do Norte, para, junto à Articulação Capixaba de Agroecologia, nos engajarmos na missão de reverter este grande deserto verde para um novo território, de biodiversidade, segurança alimentar, com equidade de gênero.