Data 07/08/2007
O Extremo Sul da Bahia: Refém nas mãos das empresas de Celulose e Papel

Estudando e analisando a história dos caminhos das empresas de celulose e papel na região do extremo sul da Bahia, a gente descobre muitas coisas que em primeira instância não tem explicação lógica, mas juntando estas coisas “não lógicas”, você ganha uma visão como o modelo econômico do capital liberal e transnacional de fato funciona, impondo um desenvolvimento econômico, muitas vezes não sustentável, - veja o desastre ecológico que atinge e ameaça o planeta terra -, que é bom para uns poucos capitalistas porém coloca direta e indiretamente uma parte da população na miséria e no desespero.

Vejamos algumas coisas “não lógicas”. As empresas de celulose e papel ganhavam um financiamento do  BNDES, Banco Nacional de desenvolvimento Econômico e Social, que é muito maior do que o financiamento de toda pecuária e agricultura nos 21 municípios durante os anos 1992 até 2002. Além disso, para que financiar essas empresas? Posso admitir um financiamento e isenção de impostos para essas empresas para que as mesmas possam competir melhor no mercado internacional. Mas nesse caso, em comparação com outras partes do mundo, o salário aqui é muito mais baixo, a terra muito mais barata, e o eucalipto aqui, por causa do clima, até 5 vezes mais rápido do que em outras partes do mundo. Tem lógica o governo ajudar essas empresas financiando-as e isentando-as de impostos que geralmente qualquer outro ramo da indústria é obrigado a pagar? Sabe que o valor da isenção é tão grande que paga tranqüilamente a folha de pagamento dessas empresas, conforme o levantamento que fizemos em 1995.

 

Para a construção da fábrica da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose, com uma capacidade de 600.000  toneladas de celulose por ano, era necessário um EIA – Estudo de Impacto Ambiental, e RIMA – Relatório do Impacto Ambiental. Agora para aumentar a capacidade produtiva para 1.600.000 toneladas não precisa mais nem EIA, nem RIMA!!! É lógico?  Para quase triplicar a produção, você precisa  3 vezes mais terra, 3 vezes mais veneno, 3 vezes mais água ...... somente não precisa de 3 vezes mais trabalhadores mas o lucro vai aumentar também 3 vezes.  A isenção dos impostos sobre a exportação aumenta 3 vezes!!

 

Centenas de árvores de Dendê foram exterminadas por envenenamento pela Aracruz com a justificativa que Dendê é uma árvore exótica invasora e hoje ameaça a Mata Atlântica!!! Tem lógica? A  árvore dendê já foi incorporada e aceita pelo meio ambiente na região faz dezenas de anos. Agora o eucalipto com suas transformações genéticas é de fato uma ameaça, ainda desconhecida,  para o pouco que resta da Mata Atlântica.

 

Sempre se escuta que as empresas estão dando todo apoio aos apicultores. Do outro lado num encontro realizado em Eunápolis, onde representantes da Veracel estavam presentes, fiz a seguinte pergunta: “As empresas estão “criando” com a tecnologia genética uma árvore que não floresce mais?”  (Uma árvore que não floresce mais, cresce um pouco mais, porém isso significa um prejuízo muito grande para a apicultura na região). Os representantes da Veracel responderam literalmente: Padre José o Senhor sabe para que estamos plantando eucalipto? Respondi: “Suponho que sim, é para produzir celulose e papel”. “Muito bem , então o Sr, deve saber que flores e frutas não nos interessam!” Tem lógica? .... 

 

Andando no campo, ouvindo os pequenos produtores que ainda resistem, trabalhando e vivendo de suas roças, muitas vezes se escuta que os córregos onde antigamente tomavam banho já secaram ou estão secando. Quem deve garantir um meio ambiente saudável para hoje e para gerações futuras é o Estado. É o Estado que deve fiscalizar, através dos órgãos federais, estaduais e municipais, se nós cidadãos, estamos respeitando o meio ambiente. Sabemos que existe corrupção em quase todos os órgãos públicos. Sabemos também que muitos órgãos públicos não tem nem pessoal suficiente, nem os meios adequados para cumprir sua função.  Andando pelos eucaliptais podemos verificar que existem enumeras ilegalidades.... será que os fiscais desses órgãos públicos não estão vendo isso? Tem lógica?

 

Em quase todos os municípios onde as empresas tem plantações, elas tem uma relação bem afinada com o poder executivo, legislativo e judiciário, pois as empresas  dão uma “esmola”, grande ou pequena. As “esmolas” são distribuídas de varias formas: que vai desde a recuperação do Fórum da Comarca, construção de uma escola ou uma creche, reforma uma praça pública, financiam uma festa, entre outras, e depois conseguem mudar as leis municipais, ou impedem a criação de leis mais rígidas para plantar eucalipto. Tem lógica? Assim poderia continuar dando muitos outros exemplos que indicam que o Extremo Sul da Bahia está ficando cada vez mais nas mãos destas empresas, que continuam desrespeitando as leis. Tudo começou sem ter feito um Zoneamento Ecológico Econômico, exigido por lei, e tudo continua sem Zoneamento Econômico Ecológico, já se passaram quase 20 anos! Tudo começou ilegalmente e tudo continua ilegalmente já são quase 20 anos de abuso e ilegalidade! 20 anos! 20 anos! Hoje mais 20 mil hectares liberado para plantar eucalipto em Teixeira de Freitas, município bem castigado pela monocultura de eucalipto,  amanhã será Itanhém, depois, Medeiros Neto.... Mesmo assim as empresas ganham certificações nacionais e internacionais que são empresas exemplares, que respeitam o meio ambiente, que cumprem as leis nacionais, locais e internacionais....! Tem lógica ?? Um dia a comunidade vai acordar e descobrir que tudo isso leva a um grande desastre ecológico, econômico e social. Acorde comunidade sul baiana, vamos dizer não à ilegalidade. Alias, pode ser tarde demais...

 


Fonte: Pe.José Koopmans - Teólogo, Terapeuta Holísitco

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